Compulsão por doces não é falta de força de vontade: é química, emoção e saúde. Especialistas revelam o que está por trás da vontade incontrolável de açúcar.
Confesso: eu sou chocólatra assumida. Troco comida salgada por doce facilmente — se for de chocolate então, melhor ainda. Meu mantra sempre foi que preciso de um doce todo dia, toda hora, para “adoçar a vida”. Pelo jeito, Raphael puxou a mamãe, enquanto Sophia foi na contramão: a sobremesa favorita dela é Cheetos. Essa convivência tão diferente aqui em casa só reforça uma verdade: cada organismo reage de um jeito ao açúcar, mas ninguém escapa da relação intensa que temos com ele.
Quem nunca abriu a porta da geladeira sem estar com fome, só para beliscar um pedaço de chocolate? Ou, depois do almoço, sentiu aquele impulso quase irresistível por uma sobremesa, mesmo de barriga cheia? Para muita gente — especialmente mulheres, que convivem com variações hormonais ao longo da vida — a vontade de doce parece uma luta diária. O que antes era tratado apenas como “falta de força de vontade” agora ganha novas explicações científicas: compulsão alimentar também tem a ver com bioquímica, metabolismo e saúde emocional.
A ciência e a Vitamina B3: o doce como recompensa no cérebro
Um estudo realizado no Centro de Pesquisa Metabólica da Faculdade de Medicina de Copenhagen mostrou que a Vitamina B3 (niacina) pode ajudar a reduzir a compulsão por doces. O experimento revelou que níveis mais altos da vitamina fizeram camundongos preferirem água comum a adoçada — sinal de que o nutriente modulava a forma como o cérebro reagia ao açúcar.
O detalhamento mostrou que a vitamina B3 age no centro de recompensa do cérebro, equilibrando a forma como sentimos prazer.
Segundo o médico Dr. Adriano Faustino, especialista em obesidade e medicina funcional:
“Essa pesquisa mostra que a fome não é apenas emocional; muitas vezes ela é causada por um desequilíbrio bioquímico. Quando conseguimos modular esse processo de forma natural, temos um caminho importante para prevenir compulsão alimentar e obesidade.”
A voz da prática: quando o corpo pede doce demais
O farmacêutico e homeopata Jamar Tejada reforça que o açúcar é combustível direto para o cérebro, mas os excessos são sinal de alerta.
“Quando há descontrole nutricional, o cérebro pede glicogênio e naturalmente quer a glicose de rápida absorção, que vem dos doces. Esse consumo gera um pico de energia, mas logo depois a glicemia cai bruscamente, ativando novamente o mecanismo da fome. É um ciclo vicioso.”
Ele lembra que a exaustão física e mental, comum na rotina corrida, aumenta o apelo do doce. “O açúcar dá energia imediata, mas também cobra caro com o armazenamento em forma de gordura e o retorno da fome pouco tempo depois.”
Resistência à insulina: o gatilho silencioso
Outro fator é a resistência à insulina. Quando as células não respondem bem ao hormônio, o corpo pede ainda mais açúcar. Isso explica o desejo quase incontrolável por sobremesas logo após as refeições.
Exames como glicemia, T3 e T4 podem ajudar a identificar se há alterações metabólicas ou hormonais envolvidas.
Quando o doce vira mal-estar físico
O excesso de açúcar pode provocar sintomas inesperados. O Dr. Ricardo Dorigueto, otoneurologista, explica que o consumo exagerado de doces pode causar tontura, zumbido e até sensação de ouvido tampado.
“Carboidratos simples, principalmente em jejum, geram picos de insulina seguidos de quedas bruscas de glicose. Isso pode provocar fraqueza e tontura”, esclarece.
Segundo ele, não só o chocolate, mas também pães, massas, refrigerantes e bebidas alcoólicas podem intensificar o problema. A recomendação é optar por porções pequenas e chocolates com mais de 60% de cacau, que além de menos açúcar ainda trazem flavonoides benéficos para o coração.
Como driblar o desejo sem cortar o prazer
- Prefira carboidratos de baixo índice glicêmico (batata-doce, lentilha, quinoa).
- Mantenha refeições equilibradas ao longo do dia.
- Identifique gatilhos emocionais (cansaço, estresse, tristeza).
- Inclua alimentos ricos em Vitamina B3 (atum, frango, amendoim, grãos integrais).
- Considere alternativas naturais (como a fruta Garcinia, sob orientação).
- Não demonize o chocolate: escolha versões com mais de 60% de cacau.
Açúcar, autoestima e vida real
O doce não é só alimento: ele carrega memórias, afeto e recompensas emocionais. Demonizar o açúcar aumenta a culpa; encontrar equilíbrio é o caminho mais leve e eficaz.
Como resume Dr. Adriano Faustino:
“O desejo por doces não depende apenas de força de vontade, mas também de fatores bioquímicos. Pequenas intervenções podem ter impacto direto na saúde e no bem-estar.”
No fim, não se trata de cortar o prazer, mas de escutar o corpo e ajustar a rotina. Porque autocuidado também pode — e deve — ter gosto doce.
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